Aquilo que se diz é aquilo que se faz. A era do lava mais branco, tão cara à publicidade, já era.
Os blogs, de uma maneira geral, são formas de expressão extremamente livres, imediatas e acessíveis. Manifestar opiniões e tentar influenciar as pessoas são dois lados de uma mesma atitude que inundou a blogosfera nos últimos anos. É um exercício tentador, na maioria das vezes extremamente solitário ou cobarde, mas que tem, não raras vezes, um efeito de escala desmesurado que espanta os próprios criadores desses espaços online.
Há cada vez mais exemplos de sites informativos e/ou opinativos em contacto directo com massas gigantescas de consumidores. Por trás destas máquinas estão muitas vezes empresas apostadas em ganhar muitos milhões à custa de uma informação que está, invariavelmente, do lado de quem está habituado a ser um mero espectador. Curiosamente ou não, estes blogs são também canais de ligação das próprias empresas que têm necessidades de comunicação diferentes junto de mercados mutantes. Mas são poucas as que arriscam a sua presença em sites feitos pelos próprios consumidores.
Seja através de textos, imagens ou vídeos, a internet mais parece um campo de batalha, no qual ninguém se entende. Ora acontece que os blogs estão a pôr em risco a maioria das empresas, as mesmas que lidam mal com o marketing viral, com a opinião dos clientes, com a concorrência, com elas mesmas ou com as simples «bocas» destrutivas.
Estas grandes empresas são normalmente consumidoras ávidas de agências de comunicação. Estão habituadas a um modelo de informação que está a cair em desuso com o advento do online e que, mais grave, está a ser totalmente alterado. Diria mesmo, brutalmente alterado. É um modelo incompatível com uma informação controlada porque, por natureza, o meio online é incontrolável. É um modelo inconciliável com uma comunicação tradicional que não sabe como responder neste novo ambiente.
Por isso, é absurdo ver marcas globais a dizer que estão a aprender o paradigma do online e criam, nos seus próprios sites, fóruns de discussão «muito livres», onde os consumidores podem descarregar abertamente as suas raivas. Quem julga que isto é estar na internet, engana-se. É preciso ser proactivo e antecipar uma tendência que já não vai parar. E, cada vez mais, será necessária a coerência nos comportamentos. Aquilo que se diz é aquilo que se faz. A era do lava mais branco, tão cara à publicidade, já era. Não entender isto porá não só em causa as empresas e as marcas mas também, por arrasto, as próprias agências de comunicação.
2006-12-07 in, http://www.portugaldiario.iol.pt, por Rui Camarinha – rcamarinha@mce.iol.pt